Rafael Fritsch Walendorff – Poesia Inédita FEGARP 2009
Tio Juca repontava a tropilha
No seu zaino, bem montado
Fitou com olhos cansados
Um guri abrir a porteira
E chamar para a mangueira
Os cavalos de seu cuidado
Trazia atado no barbicacho
Do chapelão aba larga
Aquele terço que rezava
A cada relincho que ouvia
Era a esperança que sentia
Nas léguas que tropeava
Atou o pingo num palanque
Desencilhou sem demora
E no passar das horas
Rezou a última "ave maria"
Mas ouviu o que temia
Quando descalçou as esporas
"Juca, Juca, o velho..."
Gritava a Dila lá na casa
"A morte não atrasa
Corre acudir teu pai
Ele não respira mais
Não sei o que se passa!"
Há dias o Severo andava mal
Não conseguia nem comer
A vontade de viver
Aos poucos acabava
Pelo pior já esperava
Que pudesse acontecer
Na cama do quarto pobre
Jazia a figura do gaúcho
Vestia as pilchas de luxo
Bombacha e guaiaca já folgadas
Gastas na lida das invernadas
Campeando bóia pra o bucho
"Avisa a Erondina
Prepara o bagual
Talvez se levar pro hospital
O doutor cure a enfermidade"
Mas tava distante a Soledade
E a morte batendo no portal
Nessas horas qualquer um se achica
Até quem sempre agüentou o tirão
Quem nunca frouxou o garrão
Pra inverno, pobreza ou a fome
Ou pra qualquer tipo de homem
Que se gaba pra um cristão
A idade e a doença
Malevas como potro caborteiro
Tiraram a vida do campeiro
Sempre forte e lutador
Pois diante dessa dor
Nem o mais forte fica inteiro
Retrato vivo da Pampa
Campeador de querências
Até perdendo a consciência
Não se quedou intimidado
Pois lhes digo, morreu pilchado
Por ser gaúcho na essência
"E os guris lá em Brasília
Quem vai avisar?
Será que podem chegar
Pra hora da despedida"
Por certo já sabem da partida
E sentem na alma o pesar
A morte ninguém peala
Foi o fim da tropeada
À tardinha, a casa lotada
De amigos entristecidos
Para o último adeus ao falecido
Antes da unção sagrada
Era o comentário do velório
Até o padre fez menção
Que aquele cidadão
Não poderia morrer
Para que todos pudessem ver
Como manter a tradição
Quem vai mostrar pro guri
O homem gaúcho de amanhã
Como encilhar manhãs
No lombo de um potro machaço
E mostrar a força do braço
E a valentia dos tarãs
Quem vai ensinar a doma
Casqueio, tosa e marcação
E como cevar um chimarrão
Com jujos da própria alma
E oferecer na cuia a calma
Para a prenda do coração
Quem vai madrugar setembros
E acordar fantasmas nas coxilhas
Enredado em lembranças caudilhas
Com a mesma gana de lutar
Cabresteando o Sul no olhar
E no peito o orgulho farroupilha
Calou-se a voz do campeiro
Aquietaram-se as mãos calejadas
Fortes para carpir de enxada
E espertas para enrolar o palheiro
Que sempre foi companheiro
Nas mais xucras gauchadas
A vida daquele taura
Suspirou, forcejou, mas sumiu
Ele que desdobrou madrugadas de frio
Peleou com lobisome e boitatá
Agora no céu vai matear
Com a velha que antes subiu
De acalanto penso que a alma
Corre solta pelo rincão
Ou pelos cantos do galpão
E no aconchego de um mate
Talvez no calor de um embate
Pra defender o nosso chão
O pingo ficou solito
Amargurado, mordendo o freio
Ficaram esporas e arreios
Dependurados nos ganchos
E a solidão de um rancho
Cheio de saudade e anseios
Na hora do enterro, um gaúcho
Soltou um verso lá do fundo
"Agora tu deixas este mundo
Pra empeçar outra campereada
E fica uma saudade aquerenciada
E um desejo tão profundo
De que tu possas ir em paz
E olhar pelos paysanos
E que no passar dos anos
Ninguém esqueça tuas lições
E aguente os tirões
E assombros do minuano"
Um beijo em Santa Rita
Um pedido a padroeira
Que leve esta alma campeira
Abençoada até o céu
E cubra com teu véu
Quem aqui ficou na soleira
O pranto então se misturou
Com as flores colocadas ao redor
Do velho jazigo e também da dor
Que agora assola o coração
Mas que linda fica para a recordação
A imagem do Severo naquele caixão
Envolto na bandeira tricolor