Rafael Fritsch Walendorff – Declamação FEGARP 2008
O dia nem bem tinha clareado
Mas a peonada já se aprontava no galpão
Ao redor do fogo de chão
Alguns causos se contava
E na velha cambona a água esquentava
Para um bom chimarrão
Estavam todos pilchados a capricho
Bombacha nova, botas, camisa de botão
E de antemão
Estavam todos avisados
Aquele não era dia de trabalho
Mas sim de diversão
Era dia de baile do patrão velho
E pra isso não se economizava ali na estância
A notícia percorreu distâncias
De todo lado viria um conhecido
Seu Severo Ferreira era muito querido
Por toda aquela vizinhança
A festa começava muito cedo
Tinha churrasco, fandango e muita canha
Não se conhecia na campanha
Encontro maior e mais bonito
E pra garantir a paz na porta se via escrito
“Aqui ninguém se estranha”
Quem sabe por isso o Jandir
Mandou matar a melhor rês
Ovelhas talvez três
E um porco bem gordo
Não queria que faltasse nem acento pro povo
Até cepo de cerne o guasca fez
A tia Dila e as muié
Passaram dois dias assando pão
Fizeram massa pro macarrão
Dois baldes de bolacha pintada
Na festa não ia faltar nada
Até pastel de ‘abobrada’ e doce de mamão
O tio Juca se encarregou do churrasco
E mandou trazer da cidade as bebidas
Cachaça das mais curtidas
E cerveja bem gelada
As ‘moça’ iam tomar limonada
E ajudar com as outras comidas
Quando se fez o alvoroço
Lá estava o Seu Severo
Com seu 92 invernos
E um sorriso de piá
O povo já começava a chegar
E ele mateando bem esperto
O tio Tomáz que vinha da fronteira
Soltava gritos que chegavam a dar eco
Antes havia apeado no bolicho do Maneco
Pra comprar uma corda de fumo
Que trazia com aprumo
Pra presentear aquele velho
Rever os bons amigos emocionava o Severo
E o gaúcho de alegria parecia não se agüentar
Faceiro que nem piá
Solto na invernada
Que de tão feliz não pára de dar risada
E só por diversão sai arrancando caraguatá
Por ali todos se acomodaram
Vez por outra mais alguém se achegava
Era bonito ver a gauchada
Proseando e tomando trago
As mulheres bombeavam um amargo
Enquanto o tio Juca a carne assava
Não faltou também salame e morcilha
E assim o almoço se fez tranqüilo
A não ser pelo susto que o Murilo
Índio pesado e grosso
Nos deu quando se engasgou com um osso
Que lambia ali feito bicho
Foi preciso até dar uns tapas
Porque aquilo tossia sem parar
Mas já começou a melhorar
Até que se curou
E de vereda se atracou
Numa costela que dava gosto de olhar
Depois do almoço e dos doces
Um tal de Silva puxou a guitarra
E já tava grande a farra
Quando Dom Alves empeçou a cantar
Não teve quem não quisesse dançar
E se soltar das amarras
Um ‘loco’ alto e careca
Com cara de mau e queixo grande
Escorado num palanque
Judiava de um pandeiro
Foi quando se aprontou o gaiteiro
E no baile deu arranque
Era baile de gente direita
Mas nunca falta um carancho
Mal apeou naquele rancho
E o tempo se parou feio
O Cássio, que tem fama de revolveiro,
Já quis mandar o maula pro campo santo
De pronto se aquietaram
Quando perceberam quem era
Vinha de longe aquele qüera
Que já chegou meio borracho
Bebia igual terneiro guacho
Em ‘teto’ de vaca leiteira
Era Dom Ricardo, o maturrango
Neto do Severo e amante da carpeta
Andava teatino, meio sotreta
Campeando algum bochincho
Desiludido com os cambichos
Enredado no truco e na caixeta
No baile não se entrava armado
Nem se quer confusão se admitia
Podiam dançar uns três dias
Que a canha não ia faltar
A gaita não ia parar
Mas não queria ver rebeldia
Por isso cada peão tirava sua faca
E as moças eram proibidas de dar carão
E quando a coruja num moirão
Anunciava o apagar do sol braseiro
Se acendia um candeeiro
E continuava a marcação
Quantas morenas cor de cuia
E outras tantas moças solteiras
Se enredavam na vaneira
Com gaudérios apaixonados
E já saiam de casamento marcado
‘Locas’ de faceiras
Assim seguia a bailanta
E o Seu Severo só de olho
O Ademir já tava com os pés de molho
Pois não bastasse as botas apertadas
Ainda levou duas pisadas
Da filha de um crioulo
O Leonardo debruçado numa janela
Galanteava uma china com paciência
Era o índio mais atipado da querência
Não voltava pra casa sozinho
Sempre na garupa do tordilho
Levava uma prenda cheia de carência
O Caruncho, índio buenacho
Filho mais moço do Queixinho
Se emborrachou devagarzinho
E sumiu das vistas daquela gente
Já tinham dado por morto o vivente
Quando o encontraram no pasto dormindo
Nesse tranco seguiu o surungo
Até o gaiteiro ficar cansado
O índio velho tava encharcado
Escorria suor até das melenas
Já se despedia com uns “buenas”
Quando o patrão quis ser escutado
Na charla pediu mais uma marca
Aquela que sua velha tanto gostava
Ali ela não estava
Para juntos bailarem no salão
Mas lá de riba sentiria a emoção
Do gaúcho que de saudade chorava
No final do baile
Todos se cumprimentavam mui alegres
Iam na mangueira desatar os fletes
E partir de volta pra casa
Do poncho a chinita tomava uma asa
Pois o gaúcho com aquele amor se aquece
Festa gaúcha, barbaridade!
Que vos conto com muito esmero
Destino certo de muitos gaudérios
Que campeam diversão
Pois eu também tomei trago e ajustei meu coração
No baile do Seu Severo