quinta-feira, 20 de agosto de 2009

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Último Pealo do Seu Severo

Rafael Fritsch Walendorff – Poesia Inédita FEGARP 2009

Tio Juca repontava a tropilha
No seu zaino, bem montado
Fitou com olhos cansados
Um guri abrir a porteira
E chamar para a mangueira
Os cavalos de seu cuidado

Trazia atado no barbicacho
Do chapelão aba larga
Aquele terço que rezava
A cada relincho que ouvia
Era a esperança que sentia
Nas léguas que tropeava

Atou o pingo num palanque
Desencilhou sem demora
E no passar das horas
Rezou a última "ave maria"
Mas ouviu o que temia
Quando descalçou as esporas

"Juca, Juca, o velho..."
Gritava a Dila lá na casa
"A morte não atrasa
Corre acudir teu pai
Ele não respira mais
Não sei o que se passa!"

Há dias o Severo andava mal
Não conseguia nem comer
A vontade de viver
Aos poucos acabava
Pelo pior já esperava
Que pudesse acontecer

Na cama do quarto pobre
Jazia a figura do gaúcho
Vestia as pilchas de luxo
Bombacha e guaiaca já folgadas
Gastas na lida das invernadas
Campeando bóia pra o bucho

"Avisa a Erondina
Prepara o bagual
Talvez se levar pro hospital
O doutor cure a enfermidade"
Mas tava distante a Soledade
E a morte batendo no portal

Nessas horas qualquer um se achica
Até quem sempre agüentou o tirão
Quem nunca frouxou o garrão
Pra inverno, pobreza ou a fome
Ou pra qualquer tipo de homem
Que se gaba pra um cristão

A idade e a doença
Malevas como potro caborteiro
Tiraram a vida do campeiro
Sempre forte e lutador
Pois diante dessa dor
Nem o mais forte fica inteiro

Retrato vivo da Pampa
Campeador de querências
Até perdendo a consciência
Não se quedou intimidado
Pois lhes digo, morreu pilchado
Por ser gaúcho na essência

"E os guris lá em Brasília
Quem vai avisar?
Será que podem chegar
Pra hora da despedida"
Por certo já sabem da partida
E sentem na alma o pesar

A morte ninguém peala
Foi o fim da tropeada
À tardinha, a casa lotada
De amigos entristecidos
Para o último adeus ao falecido
Antes da unção sagrada

Era o comentário do velório
Até o padre fez menção
Que aquele cidadão
Não poderia morrer
Para que todos pudessem ver
Como manter a tradição

Quem vai mostrar pro guri
O homem gaúcho de amanhã
Como encilhar manhãs
No lombo de um potro machaço
E mostrar a força do braço
E a valentia dos tarãs

Quem vai ensinar a doma
Casqueio, tosa e marcação
E como cevar um chimarrão
Com jujos da própria alma
E oferecer na cuia a calma
Para a prenda do coração


Quem vai madrugar setembros
E acordar fantasmas nas coxilhas
Enredado em lembranças caudilhas
Com a mesma gana de lutar
Cabresteando o Sul no olhar
E no peito o orgulho farroupilha

Calou-se a voz do campeiro
Aquietaram-se as mãos calejadas
Fortes para carpir de enxada
E espertas para enrolar o palheiro
Que sempre foi companheiro
Nas mais xucras gauchadas

A vida daquele taura
Suspirou, forcejou, mas sumiu
Ele que desdobrou madrugadas de frio
Peleou com lobisome e boitatá
Agora no céu vai matear
Com a velha que antes subiu

De acalanto penso que a alma
Corre solta pelo rincão
Ou pelos cantos do galpão
E no aconchego de um mate
Talvez no calor de um embate
Pra defender o nosso chão

O pingo ficou solito
Amargurado, mordendo o freio
Ficaram esporas e arreios
Dependurados nos ganchos
E a solidão de um rancho
Cheio de saudade e anseios

Na hora do enterro, um gaúcho
Soltou um verso lá do fundo
"Agora tu deixas este mundo
Pra empeçar outra campereada
E fica uma saudade aquerenciada
E um desejo tão profundo

De que tu possas ir em paz
E olhar pelos paysanos
E que no passar dos anos
Ninguém esqueça tuas lições
E aguente os tirões
E assombros do minuano"

Um beijo em Santa Rita
Um pedido a padroeira
Que leve esta alma campeira
Abençoada até o céu
E cubra com teu véu
Quem aqui ficou na soleira

O pranto então se misturou
Com as flores colocadas ao redor
Do velho jazigo e também da dor
Que agora assola o coração
Mas que linda fica para a recordação
A imagem do Severo naquele caixão
Envolto na bandeira tricolor

sábado, 1 de agosto de 2009

Baile do Seu Severo

Rafael Fritsch Walendorff – Declamação FEGARP 2008


O dia nem bem tinha clareado
Mas a peonada já se aprontava no galpão
Ao redor do fogo de chão
Alguns causos se contava
E na velha cambona a água esquentava
Para um bom chimarrão

Estavam todos pilchados a capricho
Bombacha nova, botas, camisa de botão
E de antemão
Estavam todos avisados
Aquele não era dia de trabalho
Mas sim de diversão

Era dia de baile do patrão velho
E pra isso não se economizava ali na estância
A notícia percorreu distâncias
De todo lado viria um conhecido
Seu Severo Ferreira era muito querido
Por toda aquela vizinhança

A festa começava muito cedo
Tinha churrasco, fandango e muita canha
Não se conhecia na campanha
Encontro maior e mais bonito
E pra garantir a paz na porta se via escrito
“Aqui ninguém se estranha”

Quem sabe por isso o Jandir
Mandou matar a melhor rês
Ovelhas talvez três
E um porco bem gordo
Não queria que faltasse nem acento pro povo
Até cepo de cerne o guasca fez

A tia Dila e as muié
Passaram dois dias assando pão
Fizeram massa pro macarrão
Dois baldes de bolacha pintada
Na festa não ia faltar nada
Até pastel de ‘abobrada’ e doce de mamão

O tio Juca se encarregou do churrasco
E mandou trazer da cidade as bebidas
Cachaça das mais curtidas
E cerveja bem gelada
As ‘moça’ iam tomar limonada
E ajudar com as outras comidas

Quando se fez o alvoroço
Lá estava o Seu Severo
Com seu 92 invernos
E um sorriso de piá
O povo já começava a chegar
E ele mateando bem esperto

O tio Tomáz que vinha da fronteira
Soltava gritos que chegavam a dar eco
Antes havia apeado no bolicho do Maneco
Pra comprar uma corda de fumo
Que trazia com aprumo
Pra presentear aquele velho

Rever os bons amigos emocionava o Severo
E o gaúcho de alegria parecia não se agüentar
Faceiro que nem piá
Solto na invernada
Que de tão feliz não pára de dar risada
E só por diversão sai arrancando caraguatá

Por ali todos se acomodaram
Vez por outra mais alguém se achegava
Era bonito ver a gauchada
Proseando e tomando trago
As mulheres bombeavam um amargo
Enquanto o tio Juca a carne assava

Não faltou também salame e morcilha
E assim o almoço se fez tranqüilo
A não ser pelo susto que o Murilo
Índio pesado e grosso
Nos deu quando se engasgou com um osso
Que lambia ali feito bicho

Foi preciso até dar uns tapas
Porque aquilo tossia sem parar
Mas já começou a melhorar
Até que se curou
E de vereda se atracou
Numa costela que dava gosto de olhar

Depois do almoço e dos doces
Um tal de Silva puxou a guitarra
E já tava grande a farra
Quando Dom Alves empeçou a cantar
Não teve quem não quisesse dançar
E se soltar das amarras

Um ‘loco’ alto e careca
Com cara de mau e queixo grande
Escorado num palanque
Judiava de um pandeiro
Foi quando se aprontou o gaiteiro
E no baile deu arranque

Era baile de gente direita
Mas nunca falta um carancho
Mal apeou naquele rancho
E o tempo se parou feio
O Cássio, que tem fama de revolveiro,
Já quis mandar o maula pro campo santo

De pronto se aquietaram
Quando perceberam quem era
Vinha de longe aquele qüera
Que já chegou meio borracho
Bebia igual terneiro guacho
Em ‘teto’ de vaca leiteira

Era Dom Ricardo, o maturrango
Neto do Severo e amante da carpeta
Andava teatino, meio sotreta
Campeando algum bochincho
Desiludido com os cambichos
Enredado no truco e na caixeta

No baile não se entrava armado
Nem se quer confusão se admitia
Podiam dançar uns três dias
Que a canha não ia faltar
A gaita não ia parar
Mas não queria ver rebeldia

Por isso cada peão tirava sua faca
E as moças eram proibidas de dar carão
E quando a coruja num moirão
Anunciava o apagar do sol braseiro
Se acendia um candeeiro
E continuava a marcação

Quantas morenas cor de cuia
E outras tantas moças solteiras
Se enredavam na vaneira
Com gaudérios apaixonados
E já saiam de casamento marcado
‘Locas’ de faceiras

Assim seguia a bailanta
E o Seu Severo só de olho
O Ademir já tava com os pés de molho
Pois não bastasse as botas apertadas
Ainda levou duas pisadas
Da filha de um crioulo

O Leonardo debruçado numa janela
Galanteava uma china com paciência
Era o índio mais atipado da querência
Não voltava pra casa sozinho
Sempre na garupa do tordilho
Levava uma prenda cheia de carência

O Caruncho, índio buenacho
Filho mais moço do Queixinho
Se emborrachou devagarzinho
E sumiu das vistas daquela gente
Já tinham dado por morto o vivente
Quando o encontraram no pasto dormindo

Nesse tranco seguiu o surungo
Até o gaiteiro ficar cansado
O índio velho tava encharcado
Escorria suor até das melenas
Já se despedia com uns “buenas”
Quando o patrão quis ser escutado

Na charla pediu mais uma marca
Aquela que sua velha tanto gostava
Ali ela não estava
Para juntos bailarem no salão
Mas lá de riba sentiria a emoção
Do gaúcho que de saudade chorava

No final do baile
Todos se cumprimentavam mui alegres
Iam na mangueira desatar os fletes
E partir de volta pra casa
Do poncho a chinita tomava uma asa
Pois o gaúcho com aquele amor se aquece

Festa gaúcha, barbaridade!
Que vos conto com muito esmero
Destino certo de muitos gaudérios
Que campeam diversão
Pois eu também tomei trago e ajustei meu coração
No baile do Seu Severo